Assobio


Hoje é aniversário da morte.

Metade de uma vida que, se me aprouvesse calendário e não cultuasse desprezo pelo tempo, seria atestado de derrota irremediável. Caixão e vela.

Não importa, ninguém saberá de que ventre nasceu nem em que formato exatamente se colocou no meu mundo para devastá-lo. Só cabe situar que naquela época eu não sabia ainda como era insignificante morrer e por isso passei a festejá-la todos os anos. O fanatismo da razão era a pena maior que uma inapetente de natureza extremada como a minha ousaria. E cumpri na ilegalidade da dor o que considerei justo ao fardo e ao tamanho das omoplatas. A desrazão veio à galope.

Mas tem coisas que só dá para debochar após o ridículo da consequência do hábito. O monge mesmo só cumpre suas vestes. A pompa do espelho é uma delas. Ele e suas rendições de maquiagem, sobras de sabonete entre os dedos e a saboneteira na louça.
Então após limpar tudo e deixar apenas o batom fica uma boca carnuda querendo ser mordida entre os dentes. E lá, no meio da garganta, um pedaço de verniz ainda teima em fazer engasgar e cuspir cremes na cara dos outros. Que estética mais infame essa, a do céu da boca. E olha que nem ousou todas as nuvens por comprometimento ancestral da laringe. Sim, as tais cordas vocais que garantem-se em mudez quando obliteradas por música que não tenha ao menos um flash de improvisação genuína.

Quando era muito jovem e conquistável só era triste. Porque já sabia que todos os sinônimos e antônimos são apenas ficcionais puros brincando de legitimidades (nascer visionário é uma merda que parece reencarnação sem atestado de óbito). Por isso fiz um pacto e coloquei um selo colado com cuspe (por via das dúvidas alguém melhor que eu poderia tocar uma flauta).
Agora sou mais jovem ainda (mais triste também, é verdade) porém indevassável de tão profundo terreno que cultivei. Mas só choro quando eu mesma rasgo minha garganta e fico jorrando, misturando meu sangue seduzido pelo meu próprio instrumento.

Na condição de doçura que não se rende fumo meu cigarro como a filha do meio e entrego presentes para que a caçula e a primogênita sejam lembradas.
Ainda é noite e por isso sorrio olhando as velinhas fincadas no bolo que eu acabei de solar milimetricamente, com a mesma dedicação peculiar com que assei.

Não há mais batom que me delineie mais a boca que minha lambida e mordo assobiando.

Alguém muito querido surge repentinamente e me diz: - Juro que queria ver um texto suave seu...Não sei não, mas acho que você vai me fazer chorar...


Sim, claro que escreverei...prometo...

13 comentários:

Lua disse...

Grazzi...um dia eu ainda vou escrever tão lindo e perfeito como vc...

Lindo!

Camila disse...

Li pela manhã e fiquei com seu texto latejando na cabeça.
Vou ter que pensar mais pra comentar.

Nine disse...

Confesso que esse é um dos primeiros testos seus que eu leio.
A densidade é quase palpável para quem estiver disposto, claro.
Complexo e paradoxal, ele não está ali para ser entendido, apenas admirado....

Parabéns.

:)

Luis disse...

Densidade sim seus textos formam imagens instantaneas mas o que acontece com alguns leitores que não conseguem interpretar? Entendimento precisa ser buscado minha gente!!!!
Esse texto ou qualquer texto pede por isso.

Espero que vc continue escrevendo mesmo grazzi!!!

Abraços

Paulo Castro disse...

Na cidade do México, todos os anos, se festeja a morte, "A Festa dos Homens Mortos".
O povo usa máscaras de crânios, e são felizes.
Isso porque a Cidade do México vive sobre um vulcão. Pode explodir a qualquer momento.
Literatura: que viva sobre um vulcão.
Mas que não fique apenas na promessa. Exploda.
beijos.
°

Anônimo disse...

Escritor de blog é mais uma praga e só.

Grazzi em ContRo disse...

Algo incomodou o pé de carniça acima.

Paradoxo Sem Fim disse...

No mistério do sem-fim, a vida e a morte...

Sempre simultâneas e inseparáveis.

E após alguns desvendamentos, a ilusão se desfaz em slides preto-branco.

Beijos...

lance disse...

"Quando era muito jovem e conquistável só era triste".

Eu tb. Sei precisamente a que vc se referiu.
Bjo.

Andreia Muza disse...

Sempre tenho medo da morte...
saio gritando pra todo mundo com medo...os amigos me afagam
quando a morte vem e leva!
Há que gozo!
Perfeito amei e sabe porque né minha querida..rs
Beijos

Anderson disse...

Boa!!!
Queria ver como se sai escrevendo um texto "suave"...

"nascer visionário é uma merda que parece reencarnação sem atestado de óbito"
Mas isto é muiito bom!!!

Memento Mori disse...

Seu corpo é Luz e sua alma é Letra.

Izabel Xarru disse...

o anônimo pé de carniça está gordo e farto?
sei lá, eles existem.
há tempos eu não lia textos que me deixassem tão feliz por lê-los e por existir alguém, é claro que não se sabe quem, a tecê-los.
menina, quanta beleza!
queria livros e mais livros seus. e q vc não se incomodasse ao descobrir q tem mais gente no banheiro da ginástica
lá está quieto.
mas na janela q dá para a parte de trás tem mais ar e menos gente e quase nunca cheira a mijo.