Os Comparsas da Muda Hora

O marido tinha-lhe uma verdadeira adoração.
Admirava-se da sua inclinação para o belo, em todas as variações possíveis era uma perfeccionista anfíbia.
Desde o primeiro dia em que se conheceram, ele pedindo uma informação sobre a Rua dos Alforjes, e ela, mui graciosamente não só lhe informara, mas o conduzira ao destino proposto também.

Casaram-se logo depois, ela num vestido reto e sóbrio, como ela mesma. Ele, de fraque, que herdara de seu pai alcoólatra, juntamente com o que restara do estoque de destilados.
Entendiam-se tão bem que quando se falavam era por puro modismo coloquial.
Mesmo diante das bebedeiras geneticamente programadas do marido, ela via estética.

Costumava sentar-se na poltrona e deixava-o gozar plenamente do seu estado burlesco e delicioso, exalando as excentricidades dos dois pela boca, pelos movimentos do corpo de bufão e pelas feições de sangue.
Ela via muita graça nas intolerãncias verbais, na guerra da língua com as consoantes e no alongamento das vogais que se contorciam, aromatizadas por conhaque ou cachacinha mineira.
Passou a fazer analogias etílicas irônicas no papel e lia para ele sempre no dia posterior à bebedeira para rirem juntos e incorporarem-se de vez no hálito do conhaque. E como ele a amava mais ainda por isso! Adorava servir de chacota para ela e suas alucinadas crônicas humanas.

Numa noite mais quente do que o comum naquela época do ano propusera ao marido inverter as funções das personagens.
A principio ele não quis, acostumara-se a ser o protagonista das histórias dela e pegara muito gosto.

Mas enfim cedeu, não havia argumentos suficientes para negar nem vontade de se negarem coisa alguma que sobrasse além de seus caprichos mútuos.
Sentou-se na poltrona florida com o bloco de anotações e a caneta dela nas mãos. E tremia com a expectativa da bêbada na sua estréia.

Ela saiu vestida como sempre, nua, mas não voltou naquela noite nem nas cinco seguintes.
Apavorado, saiu à sua procura pela cidade inteira, gritando seu nome por todos os lugares pelos quais passava.

No sexto dia a encontrou, na Rua dos Alforjes, totalmente transtornada e louca, perambulando dançarina com guardanapos de papel rabiscados na mão.
Sentou-se ao seu lado, na calçada, comovido com tal entrega ao personagem, e a amou mais ainda por isso.

Até hoje, dizem os ébrios, cem anos depois, que ao passar pela Rua dos Alforjes, ainda se vîslumbra dois espectros sentados na calçada.

Um homem vestido de fraque destilado e uma mulher com um vestido reto, sóbrio e rasgado.

12 comentários:

Amanda disse...

Analogias etílicas irônicas no papel, adorei! Cumplicidade no irreverente, no diferente, naquilo que realemente se sente...

Ótimo texto, Dra. Grazziela!!!

;) Dinha...

Carolina disse...

Eu até me assusto ao tentar descobrir quantas metáforas existem nesse texto, mas não me assusto por serem sutis e, por isso, indecifráveis numa primeira leitura (mesmo que esta seja atenta), mas por supor que escondidas nessas linhas podem estar reveladas a síndrome do amor enquanto a posse do outro e dos que só se reconhecem amados quando conseguem podar a natureza alheia, destruindo deliberadamente o que antes era tão importante, o encanto da espontaneidade(isso é foda pq eu sempre visto a carapuça).

Bendita seja a Rua dos Alforjes, início e recomeço, encontro e reencontro.

Teu texto dança, Grazzi.
Tem o teu ritmo.

(Pergunta escondidinha: O que é "prefeccionista anfíbia"? [:O])

Bjo, Carol

josé carlos disse...

cumplicidade e aceitação,colocados
de maneira sutil e brilhantemente.

Fabian disse...

Queria eu um final feliz, ainda mais feliz....

Paulo Castro disse...

O fato (quase anagrama de afta ) não é que falte lei, mas que haja uma lei...diversa.
Imperiosamente, esse casal desperta inveja dos que estão de fora.
Só para esses.
Os outros, tenho certeza disso, apenas sorriem com o canto da boca.
- O que foi ?
- Vamos para a praia ?
- Não, vamos para o complemento da praia: navio fantasma em carnaval.
°

Anônimo disse...

*****;)

Zisco disse...

Muito lindo , uma doçura acre, algo que faz sonhar ainda que nos mostre a face mais feia de algumas verdades, vc é muito competente , e tem uma sensibilidade muito grande, sempre me toca , nunca saio ileso de uma leitura dessas.

Paradoxo Sem Fim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paradoxo Sem Fim disse...

Sonho com um céu

De urubus

Coloridos

Sem núvens

Duvido!

Beth C. disse...

Lindo. Simples. Obrigada.

lancelot disse...

lindo sim.ecom uma tristeza convicta
beijo

Ana Vulcão disse...

Oq dizer ?

Vim parar aqui ...

e me deparo com leituras letárgicas, q beiram o abismo da surrealidade, passeiam pela corda bamba da realidade.

Q diz muita coisa para quem lê pingo dágua e nada pra quem não tem a imaginação fértil e a sensibilidade aguçada.

Parece q vc liga no automático e sem pensar muito cria suas obras, creia, isso é um elogio.

PArabéns dona Grazzi, eu como apreciadora da boa leitura, gostei das doses de suas letras alucinógenas.

Deu onda ... a tua onda.