A moça da roça




Saiu de lá muito cedo, antes do galo cantar. Despediu-se da vaca no curral e já sentiu saudade daquele leite de todo dia. Cafés de manhãs brancas com cuscuz de sol molhado.

"Dia de muito, véspera de nada". Pegou o dito popular e deu de milho pras galinhas e seus pintinhos naquele dia.
Foi parar na estrada e pegou carona com alguns caminhoneiros cheirosos, ladrões de bicicleta manetas, cafetões sem puta e travestis descodificados.
O mundo parecia o que era mesmo. Ela não era o mundo e gostava. O mundo não era ela e sonhava.

Depois de alguns meses parou numa churrascaria de beira de estrada com muita fome. Um moço da roça lhe convidou e ficaram algumas semanas um diante do outro naquela mesa sem falar, só comendo.

Despediram-se sabendo de tudo. Um aceno no céu era a correspondência que nunca acabava.
Então ela entrou no concreto armado furando tudo como um garoto de pênis em riste querendo comer a mãe, a irmã e todas as vizinhas.
Honrou sua árvore genealógica que lhe comia as entranhas e pintou um quadro dela saindo da vagina e entrando.

Depois é claro que fez chover outros ditados e dessa vez deu de ração a porcos. Adorava animais, todos eles eram lindos.

Enquanto isso, na cama do oitavo andar que ficava numa escada rolante, a irmã siamesa dava sustos bons com cara de amor em ateus e libertinos e eles sentiam-se puros como a moça da roça, lambendo ou cuspindo na vida eterna.

Amem.

28 comentários:

Paulo Castro disse...

A moça e seu simulacro.
Duas moças.
Uma que tem a raiz no inaudito, quem lê rápido, não entende o estranho: ficar sentada semanas...
Vingar o sangue. Os porcos.
Essa moça é raiz. E lá em cima, andares acima, uma ponta de iceberg, que serve pra alimentar outros animais, esses sim que exasperam, os ateus-libertinos que aparecem em cada esquina, que torram o saco com a leitura da coleção ( 50 páginas no máximo) "O que é Marxismo", "O que é Anarquia", enfins, os enfadonhos.
A raiz nunca será atingida.
Alguns se satisfazem com espelhos. Maior honraria aos porcos, que ao menos nos fornecem válvulas cardíacas em casos graves.
Beijos.
°

Anônimo disse...

Cada vez mais hermética, casa vez mais clara!
Beijos reverenciais
Anna

Flávio disse...

Quantas moças da roça a gente não encontra pela vida afora, jurando que eram moças de família?;-)
bjs

Vitória Régia disse...

Muito bom querida!


beijoos.

Anônimo disse...

Creio que, em termos de imagens, dos gestos de alimentar seus porcos, esvai dos braços da moça súbita imaginação (de querer ou simplesmente imaginar), e levita. Crendo que, em termos de visão, você fez fiel caricatura.
Claro que a moça precisaria de matéria-prima para tanto. E geralmente há.
Belo experimentalismo, mais experimental que belo. E geralmente é bom que seja.
Parabéns.
Abraço.

Carolina Suriane

mistica disse...

Uia...esse foi profundo e claro.

beijos-feia

SoL disse...

Que poderia dizer, além da verdade, nada mais que ela:
"UAU!"
Pra variar, arrebentando Grazzi!
Beijos da tarde Curitibana ;)

Zisco disse...

A moça da roça eu não conheço, ainda não fomos apresentados, talvez fosse bom passar semanas com ela em uma mesa de churrascaria, comendo suas palavras cheias de carne e sangue.
Não haveria melhor lugar no mundo para encontrar tal moça.

Assim como as palavras da criadora dela são cheias de vida e de dor, dói mas é belo, isso é o que faz a vida valer a pena.

Amém!

Paulo Castro disse...

Bom, vamos lá.
Se tratamos do Tao, do Taoísmo, entendo que clareza e hermetismo podem andar juntos. Mas de outra forma, como ?
O hermetismo é uma palavra que as pessoas colocam na boca como piroca em balada. Nem sabem quem é o dono.
E vem servindo na "crítica brasileira" como resposta à preguiça de certos leitores. "Autor hermético" ou leitor imbecil ? Comprei uma briga com o boçal do Férrez ( Capado Pecado) que disse "Mano, se na hora de escrever penso num lance difícil, troco a palavra pros mano da minha quebrada entenderem.
E eu respondi:
- Machado de Assis também era preto, mas não era burro.
Enfim.
E experimentalismo versus beleza--> Com que autoridade alguém pode afirmar, fazer uma assertiva, que um texto tem mais de um que de outro. Hilda Hilst ? James Joyce ? Guimarães Rosa ? Mallarmé ? Faltava beleza neles, em detrimento da experiência ? Quem diz isso ? Quem autoriza ? Fora a "opinião". Que uma opinião seja colocada em seu devido ( e diminuto ) lugar. Eu vejo beleza, vc não vê, o outro vê a avó, o fulano enxerga uma cadeira. Quem se autoriza ? Regra de etiqueta: antes da assertiva, algo como "Na minha modestíssima opinião...etc etc...". Mas tente isso do fundo da alma. SE tiver um fundo, claro.
Beijos.
E bom serviço a todos.
°

MKT - on line disse...

Fantastico em ContRo com genial titulo.

\o/

Patricia disse...

Já te falei q fico meio muda diante dos seus textos, né?

Mas gosto mto sempre! ;)

Anônimo disse...

Vc precisa de um caminhão de moças como essa, que de tanto querer dar, não sabe coloca um anuncio nos classificados ou arruma um emprego no telesexo...

Vc segue arrasando.

Anônimo disse...

"Ela não era o mundo e gostava"

claro que ela nao era o mundo
o mundo cabe dentro do sapato dela de tao pequeno.

um carneiro tocara viola hj pensando em voce.

beijos minha querida!

Lan

Andreia Muza disse...

Como tudo que é significante...não é fácil...dói...e é lindo!Bjo

Pablo disse...

Vc e suas charadas poéticas.

Esse ficou mais claro, porém, ainda, mais escuro que os do mago rs.

"francamente".

Regina disse...

Abismos dentro da minha alma...ou seriam mistérios....??

Ainda não sei...mas, ....

A moça da roça, chegou como um presente pra mim hoje !!!!

Obrigada !

Re

Anônimo disse...

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"Dia de muito, véspera de nada"....

web.rider disse...

Nossa, que lindo! Cheiro de bosta de vaca com óleo diesel. E a moça cheirando a sexo. Por todos os poros, por todos os esporros.

Amei!

Rogério Camargo disse...

Na verdade, esta moça da roça é mesmo uma moça de raça...

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Tb achei o texto hermético e cristalino!
Hermético: Hermes é o mensageiro dos deuses, é aquele que faz a ligação do divino com o humano.

Será que essa interpretação desagradaria tanto o "ilustre" crítico literário aí de cima tambem?
...

Muito bom mesmo ler seu blog Grazzi!

Marcus

Anônimo disse...

Grazy, o texto é de uma poesia surpreendente. Uma grande epifania. Tudo sendo posto e revelado em símbolos, em imagens fortes! Há, eu enti isso, um constraste quase barroco, entre dois mundos distintos que não se anulam, ainda que se choquem de frente, com força!

l. rafael nolli

www.rafaelnolli.blogspot.com

Giselle C. disse...

O mais legal de tudo é saber q a dor, a alegria, a raiva, a candura, a esperança e a desilusão q faz de todas essas criaturas do papel tão mágicas, na verdade são pedacinhos graciosos de quem empunha a pena.
Graciosa Grazzi.
;**

Nine disse...

Inacreditável.
Estou simplesmente sem ter o que dizer.

Porque o texto combina perfeitamente com o meu momento ideal.

A gente quer tanto uma coisa só para descobrir que nem era tão bom assim.
Mas a busca, o cortar dos laços, é preciso.
Senão vai doer demais quando for inevitável.

Profundo, forte, cheios de sentimentos subentendidos, escondidos em cada letra digitada.
Um impacto difícil de descrever, mas não menos surpreendente.

Parabéns.
Beijos!

thiago disse...

muito bom!
beijo

Mara Giovanna disse...

Concordo com o que o Flavio dissera: "Quantas moças da roça a gente não encontra pela vida afora, jurando que eram moças de família?" Acho que todas temos algo em comum, mesmo as simples e não vadias (são aquelas que se transformam em tanto...); mas a essência é a mesma em todas as pessoas... pois os mesmos são os sentimentos.... muitas vezes camuflados.... Bjs. e viva mais a alegria, mana........

Nine disse...

Eita!
Só consigo pensar numa definição.
Se é que precisa de alguma...
Visceral.

Cada frase, gestos descritos, velados, rimados e pintados.
Forte, tocante, chocante e inquisidor..
Gostoso de ler, rs.

Bjs.

CAAL disse...

Blog legal....