Eu-Cidade



Nem foi abraçada e couberam todos os beijos sem boca ali.

E eram tantos beijos aqueles sobrados que suas pernas sedimentaram-se em casas. Oblíquas.

Imaginou Deus pela primeira vez, antes de desejá-lo, assim.

Posta, a cidade-observância andou levemente turista por ela e a abandonou, querendo a mendicância mas temerosa da paz embrulhada por jornais.

E amêndoas brotavam do jasmim.

Um dia..era uma vez. E nos bolsos da saia carregava o cavalo Zorba, um pião de quatro faces e uma semente de tamarindo.

Por cima da saia uma calça jeans surrada com cabelos grudados de sangue. No pé esquerdo, uma navalha. E partiu.

Cidade que era de telhados a céu quebrado por asas de cobre, fincou violentamente seis dias em uma hora.

Imaginou Deus pela segunda vez, o desejando. Bocas choveram granizo e também grená, o das feridas amenas que se acham fundas.
Tâmaras macias também jorravam.
Procurou a mandrágora, que lhe apetecia lembrar seu grito de enforcado na mão e afrontá-lo. Pisar a memória até a roda furar: seu furo era melhor, de fino útero. Buda, Jesus e os outros da arca só fizeram lamber um céu que tudo dá e nada seu comporta.

Colheu morangos na Etiópia e plantou girassóis no sertão baiano. No quintal do seu apartamento fez renascer um morto só para matá-lo mil vezes e brincar de amarelinha.

Nem foi beijada e cabiam todas as bocas ali.

Sua lua era uma mendiga particular...

36 comentários:

Anônimo disse...

Grazzi,Grazzi
Cuidado!
Um dia você pode vestir a calça por cima da saia, amarrar direito a navalha no pé esquerdo,embarcar na arca e não voltar.
Lamber o céu não é pra qualquer um!
Beijocas
Anna

Grazzi em ContRo disse...

A calça já tá por cima da saia, Anna!

Louis Wheiller disse...

Ola Grazzi;
Parabéns pela sua literatura singular.
Forte, expressiva; Passeia pelo certo e pelo incerto encantadoramente.
Algo de surreal presente em cada um de nós.

Parabéns!

Green Eyees disse...

Nascer amêndoas de jasmins, colher morangos na Etiópia e plantar girassóis no sertão...por essas possibilidades existirem, é que é possível entender vc e a sua poesia - singular e especial...beijos!!!

Rachel Dias de Moraes disse...

E foram tantos beijos loucos, tantos suspiros roucos a lamber dendro de mim!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Ieeebaaaa, consegui postar meu comentario. (copiei o endereço e colei na barra.hehe)


De verdade?
Seu Eu-cidade,
linda, dinamica, misteriosa e impar me deixa cheia de porquês na cabeça.
O Eu-cidade é o mesmo Eu-Grazzi?
Por que a Grazzi é tão metaforica? Quem entende o que vc escreve entende vc? E etc, ec, etc...

Sou uma pesquisadora de gentes.

Lelé Feliz

Anônimo disse...

mmmmmmmm

Anônimo disse...

provocações...pensantes...

Otima!!!

Bj

Marcelo disse...

Cada dia mais complexa... Imaginei uma variedade enorme de coisas, até perceber que todas se encerravam em si. Desta vez, não procurei um sentido claro e deixei que a abstração dominasse a cena.

Percebi que você sempre se aproxima das minhas preocupações humanas, e isso é mesmo assustador...

Paradoxo Sem Fim disse...

Tecelã de sentires...

Em um vale de pudores.

Onde palavras alentas, se tornam labirinto de sensações.

E me fazem mendigar aos pés de uma Lua que é só sua.

Beijo

Pablo disse...

Imagina um ponto preto no centro de uma página em branco...

"Eu ainda tenho quase certeza de que minha cidade é esse ponto preto e que todo o branco fora dele não é nada. Mas ainda pretendo conhecer o branco porque me falaram que é mil vezes maior que minha cidade.

Grazzi em ContRo disse...

Lelé Feliz..

O Eu-Cidade é um microcosmo do Eu-Grazzi..
Metáfora é a único meio de cobrir vácuos da linguagem e se desdobrar..
É..sou o que escrevo sim, com grandes ossos sempre me arrodeando..

Anderson disse...

Oi!
Desculpa pelo inconveniente,mas....

Que você tá fazendo que ainda não publicou um livro?


bj!

Tarlei disse...

Muitos buracos deixados abertos...

... para pensar.

Marcelo Ferrari disse...

Grazzi, me diga, pq as mulheres esperam que os homem compreendam textos assim, se homens não possuem útero?

abçomana

Grazzi em ContRo disse...

Ué, por isso que existem os hermafroditas então, pra serem os tradutores do universo!hihihihi

peu disse...

seus textos são de um lirismo tão particular que me encanta toda vez que aqui chego.

Anônimo disse...

Surrealismo devidamente erguido de super-realismo. Raro, experimental. Acima de tudo, ótimo!
Abraços.

Carolina

thiago disse...

muito bom! diria que é um conto cubista!
beijo

Giselle C. disse...

Todas as bocas cabem nela e se espalham, perdendo-se nas esquinas..
:)
amo.

odir disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
odir disse...

"Bocas choveram granizo e também grená...".."Pisar a memória até a roda furar"..."Metáfora é a único meio de cobrir vácuos da linguagem e se desdobrar.."
"É..sou o que escrevo sim, com grandes ossos sempre me arrodeando..."


é phoda tentar comentar algo sobre vc sem cair do fio no fio da navalha..

Grazzi, ainda pouco te conheço, mas te amo. De qualquer forma. num barco, numa chuva, na madrugada sob a luz solitária da porta do hospício.. onde for...

bejo.

continue existindo. continue lançando seus enigmas perversos de deusa, que ri de nosotros cá embaixo, na borra, tentando o imponderável - te decifrar (pelo menos o 1º selo)...

Ramses disse...

Olá Grazzi.

As vezes me pergunto se algum dia desvendarei o mistério das suas palavras.

Parabéns pela elegância com que escreve cada linha.

Beijos enfeitiçados por mil bocas.

RANSES.

odir disse...

a rizadinha da esfinge é igual à do Dr. Estigma.(pra que ninguém se dê por desavizado)

Boa semana, Grazzi

Paulo Castro disse...

O nascimento de uma cidade que é o mundo e ao mesmo tempo cabe dentro de uma jeans, que ao mesmo tempo que cobre, pode ser rasgada por canivete, estilete, ou galho do sertão, jazz que ao mesmo tempo enche a cabeça da galerinha de drogas sintéticas e seus arrependimentos que não olvidam.
E olhando para isso, olhos de aranha ( a Deusa Aranha ), a mendicante que sentiu o esperma-saudade de Lao-Tsé.
Sem-vergonhas.
Mostre os pés.
Beijos.
°

Zisco disse...

Tia Grazzi,

eu não quero brincar de amarelinha com vc, tenho medo de morrer mil vezes!

Viajor de zanzibar disse...

Tia????

quem é esse muleke?

dá logo o toddynho com leite pra ele e manda descer pro play...

Grazzi em ContRo disse...

hauhauhauha

Mas eu sou inofensiva, eu juro..

Zisco disse...

É foda né?

Tem cada um que podia aproveitar a incrível chance de calar a boca, mas deixa a oportunidade passar, PQP!

Tia Grazzi , vamos fazer de conta que o mentecapto logo acima não disse nada, ok?

viajor de zanzibar disse...

"Tem cada um que podia aproveitar a incrível chance de calar a boca, mas deixa a oportunidade passar, PQP...

me diz, pequeno imbecil... vc leu isso no wikipédia hoje? pelo que vi foi só CTRL-C CRTL-V ... não aprendeu nada, tonto.

procura no ggogle tb. provavelmente vai achar lá que nem a vossa progenitora gosta de ser chamada de "tia".

procura em Braille tb.

..mas, sabe... algo me agrada em vc... vc me faz me sentir menos pateta...

Zisco disse...

Caro mentecapto, se a vc não foi dado ter originalidade para escrever não deve atribuir aos outros os teus próprios defeitos.
Te dei a incrível honra de receber uma crítica feita originalmente por mim.
A Tia Grazzi me conhece e sabe muito bem que não sou nada afeito ao recurso ora mencionado de copy and paste.
Recolha-se à sua indescritível mediocridade, e nos deixe desfrutar de nossa relação tão linda e produtiva, em outras palavras, vá pentelhar o outro, seu otário.
"GRAZZI RULES NA VEIA SEU BABACA DE MERDA"(sábias palavra da Tia Grazzi, em um momento marcante de nossas vidas)

Sueli Fajardo disse...

Grazzi,amo o que escreve. Nossa! Quanta expressividade!!!Parabéns, amiga!Beijos.

Mara Giovanna disse...

"Elegante em suas palavras"......Ramses disse....; "literatura singular"..comentou outro; e eu também pergunto.... quando vais lançar um livro... mana, estamos todos à espera....cada vez que te leio, quero desvendar essa alma .. porque preciso... bjs. e boa sorte na tua vida........

Bocage disse...

Isso aí Grazzi!
Caminhar e encontrar no charco a flor; adentrar em si e encontrar no encanto a magia; deitar-se à relva e se ver plena na luz do dia!
Caminhar, ver sempre o horizonte a fugir e apenas sorrindo, segurar nas mãos do destino... Caminhe!

Anônimo disse...

necessario verificar:)