Muro em branco



Véspera de Natal em pleno sec.XXI.
Ela acordou com aquela sensação estranha outra vez. De ser um inseto.
E como das outras vezes, repetia para si mesma "Eu fiz o que tinha que fazer, eu fiz o que tinha que fazer".
O telefone toca insistentemente e assim ficará até morrer a chamada. Olhou irritada para o aparelho que nesse momento parecia uma extensão do seu rastejar intermitente.
"Eu fiz o que tinha que fazer, eu fiz o que tinha que fazer!".

Sua expressão suavizou-se lembrando do quadro de Duchamp e sua graciosa prova de co-existência: pés que não são amputados mas delicadamente possuem vida própria.
Assim, tirou seus pés- ainda sombra da estrada- e capturou a beleza por alguns instantes na calçada. "Minha vida andaria a sua vida".

Sentia-se agora uma ave de rapina cega e linda, correndo tanto dentro daquele segundo que quis eternizá-lo.

Suicidou-se naquele dia, deixando num bilhete, um muro em branco.

"Quando a gente fica exausto, pelo motivo que for,
ficamos mais bonitos.
Mas como pedra.
A estátua vive no relâmpago.
É o céu que fazemos."

..

7 comentários:

makely disse...

Escrito!
Beijos

Zisco disse...

Tia Grazzi,

vc sempre arrasa, escreve mais por favor!

Izabel Xarru disse...

você é uma moça muito séria. e afina de escrever com a estatura do relâmpago. para o alto e para o baixo, ruído de fogo, silêncio perfeito. afunda em cada mínimo. os casais trocam de pés. antes, pedem algumas mudanças no senhor do outro corpo.quem vê cara, não vê cara em vc. 'quando estou com os olhos fechados é igualzinho quando estou com os olhos abertos'.

jorgeana braga disse...

porra.

Anônimo disse...

A única coisa mais desconcertante que um suicídio é um suicídio sem bilhete de despedida.
Qual é o quadro de Duchamp mesmo?

Fausto

Samantha Abreu disse...

tão belo, Grazzi.
a construção das imagens plenamente sensibilizada em minha frente.
Dolorido como só profundas belezas conseguem ser.

beijos, querida!

Paulo Castro disse...

Seria possível um Kafka que não angustiasse ?
Eu pensava que não. Mas vc superou aqui o magricela. Pois não é a estranha polícia EXTERNA que chega, e sim, a subjetividade, como sempre & delícia em você.
Fez o que tinha que fazer, seja lá o que for, mesmo subjetivamente perventedo Duchamp.
Làbios amputados viram pés. Angústia ? Não, o inseto agora voa. Ovídio voa metamorfoses. E po fim, a citação anônima - tua, portanto, cut-up - sob o céu que não nos protege....angústia ? Não, no relâmpago mostra o flash da arte, como aqui, relampeja Grazzi.
E para quem entenda, o suicídio é passaporte de libélula, novamente não cai no comum lugar.
Sim, valeu a pena a espera e a leitura na insônia.
Beijos.
Paulo.
http://vazamentosdevapores.blogspot.com
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