Começa o dia saindo assim em penumbras.
Ela está em pé, encostando metade das costas na parede, contritamente e olhando fixo. Um ponto além dos próprios pés se adianta e rouba luzes e sombras. Uma escada à direita observa os degraus que não são seus. O braço esquerdo semi-flexionado horizontalmente sobre si, formando um ângulo de noventa graus, sustenta o outro que lhe apóia o queixo. Não fossem os artefatos loiros adornando o penteado de nostalgia teria a lógica grega sido sequestrada formalmente e soltado tinta.
O tom é de cravos que ambicionam Mozart.
A tarde mora numa janela de galpão.
Com largura de luxo e espessura de aceno endurecido na sacada de concreto. Moraram lá telúrios rechaçados que em basalto não se corromperam. E por isso a madeira era de pinho, que escurecendo, arrepiava. Sua face revirada é toda castanha agora, em gravetos quebrados que secaram a tela. Poltrona azul adormece em suas ancas de prostíbulo inacabado. Sapatilhas combinam com sua nudez cantada entre as mãos. A outra, da pele exposta, é coadjuvante pálido que não pede cor.
O tom é do falsete que não ri.
Num outro aposento, que não é a noite que habita e sim a luminosidade excessiva do importuno cego, um homem retumba a impotência que vem do sexo.
Seu gozo ficou dentro daquela vagina de costas para ele agora e seu desejo foi roubado. O vermelho fica rosa e só há bege no livro que escreve. A cama retangular só pertence a um.
O ponto além dos próprios pés rouba a cena de outro que se invade.
Não há música que invada o que já se perdeu.
10 comentários:
É assim mesmo...
Aqui, nesse cantinho, as letras mesclam-se nos farelos.
Partes de supostos inteiros, extratos de impulsos, tudo isso e mais um pouco, habitam nas profundezas de nossos escombros. E em cada cômodo em pó, uma teimosa e mortiça lucidez pede por socorro.
Beijinski...
O lirismo descritivo, tão cruel e vivo, é para poucos...
Ao perscrutar as cores e a incidência das luzes, vejo teus olhos abertos, a secar as retinas pelos corpos secos e pintados da vida imitando a morte em vida.
Você é genial.
Gosto disso teu que é tão direto, Grazzi...
Ainda me perco por aqui às vezes, mas continuo gostando do que leio... :)
Se existe uma função da arte, é essa: um pensar gostoso.
E isso também é, vc me perguntou outro dia, a razão em um poema.
Vc não apenas vê cada personagem dos quadros, isso é ESSENCIAL, vc está participando: é uma projeção. Cada um deles tem vc.
Tem "trepar" aqui sim.
Vc trepou com os quadros.
Beijos.
http://vazamentosdevapores.blogspot.com
°
Que crueza, mulher!
Muito bom 'ver' o texto traduzido em imagem ou será 'ver' a imagem traduzida em texto?
Talvez a única tradução seja de vc mesma, da percepção poética de tudo.
Lindas impressões e expressões, Grazzi. Adorei esse muito.
Passear por aqui é entrar de cabeça no lirismo.
Anna: A casa das putas
Quando as artes se encontram, é só deslumbramento:imagem+palavra+música+silêncio.
Engraçado que quando vi essas imagens do Hopper e as passei para você, o que mais me chamou a atenção nelas não foi a solidão ( que também impressiona, é claro) e sim desolação da espera ou a dor do dever cumprido.Ao colocá-las em três cômodos de uma mesma casa, fechou-se a questão:é isso!
Três putas? Uma que ainda vai.Uma que já foi e uma que está mas já não está?Não sei. Quem tem a chave da casa é você.
Trabalhar com as cores e os sons foi covardia. Assim você desequilibra o leitor.Derruba-o. Coloca-o a seus pés.
Não dá mais pra segurar.Explode coração!
Do novo texto "Assobio" falo depois. Ainda estou chorando...
Beijos
" a tarde mora numa janela de galpão"
Detalhes tão liricamente descritos e a identificação do leitor com cada personagem, com cada 'não gesto' dele... O prazer de pairar sobre o ambiente, com olhos metafóricos e o gozo de um final de leitura que não finda, que permanece na mente, num pensamento longo e prazeroso...
Obrigada. Bjinhos.
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