Ritornello


914. Significados.

A tarde colada em cacos que eu quebrara do dia anterior.
Engraçado o jeito de paisagem remoída de quebra-cabeça enquanto se move um trilho.
Inverti e fiz descer a noite no asfalto. 914: era um número de que sorte?
A última vez que o vi assim, tão focalizado, foi numa noite sem noite, só de atiradores de facas e açoitadores.

Mas dessa vez pude olhar fixamente para ele por um bom tempo antes..os atiradores prendi no porão dos escravos..dessa vez.
914. Agora pregado num azulejo português danificado pelos séculos mas impertubável como as catequizações significantes.

Sussurrei então 914 vezes o mesmo número, ali, sem piscar. Decompus, fracionei, multipliquei, potencializei na elevação do zero.
Claro: todos os números acabam potencializados no zero. Um.

Um menino em riste me estende um tubo de cola de sapateiro; puxa meu braço. "Moça, é de graça pra você".
Sorri e apontei minhas sandálias.

"Tudo bem, entro no seu bolso e fico com Elisa acendendo seus cigarros então".

914. Lembrei do um, pisquei pro menino, peguei meu violino e dei a ele meu acordeon.

Vamos, vamos seduzir Elisa!

Zero pode ser dois..

Nômade



Elisa no bolso.

Gostava assim. Caída dentro de uma caixa de fósforo.

Sendo carregada por quem precisasse de fogo pra acender um cigarro.

Gostava de pensar que talvez aquele fosse o último cigarro a ser aceso por algum viciado. E sorria pensando nisso.

Viciados continham aquela ternura linda de artifício sem-vergonha.

Coisa de pegar um copo de cachaça já com a mão tremendo e até antes de colocar na boca sentir como se o mundo todo estivesse à sua disposição finalmente, naquela metade de minuto.

Naquela metade de gota..antes de morrer.

..


No bolso de Elisa.

O que morava ali: herança de ciganos ricos e mendigagem.

Os três porquinhos e os irmãos metralha sem disneilândia.

Ossos do ofício. Dizem.

..


Entre as duas ranhuras.

O desespero de todos e o sorriso de alguns desesperados atravessando o elmo dos horrores.

Entre o copo e a água uma passagem de segundo. Minimalismo selvagem.

..


Numa casa menor ainda feita de tripas de sangue coagulado a porta de entrada não era o espetáculo.

As crianças que passavam ficavam doces imaginando uma enorme maçã do amor gotejando.

Foi assim que nervos, vísceras e carne-viva viraram suco de língua.

Elisa lambia o avesso-mundo.

Agora montava vagões e saía pelo trilho com os bolsos cheios de sabotagens.

Distribuindo tropeços pelo mundo-avesso.

..

Quando não há carnaval..




..então costuramos nossas mãos assim, em relevos salivados de boca.

Você é mesmo algo desenhado entre a minha e o desejo de morder gagueiras.
Morri, meu pássaro. Só pra te alcançar.
Enquanto te sobrevoava desci docemente sobre teu peito de arroz, a mais fina tecelagem entre meus dedos escuros.
Tão morno teu cantar que cavou um vulcão e ficou lá, borbulhando favos e pólen numa forma minério-animal que nunca vira antes.
Carvão adormecido em savanas, acordando marfim sinuoso dentro do sexo mamífero.
Foi jorrando leite do moinho que te ofereci a casa e o dedal.
Com solenidade ímpar aderimos duas cloacas e ficamos pegajosos lambendo violentamente as seis bulhas.
Nos intervalos que não haviam comemos nossas costas arranhadas com suturas saltando dos olhos-asas.
Quanto mais invasores, invadidos.
E tanto que finalmente..Eu-você e sem categoria nem espécie.
Agora somos uma raça de peles que desdobram-se hibridamente para sobreviverem ao amanhã.

Um candeeiro guarnece toda a emboscada em canela e hortelã furiosas..

Para a Moça-Bonsai




É, eu conheço a minha sorte..

Amarro palavras no fio escorrido do que sobrou, não sobrando nada.

Samurai me dôou seus orgãos uma vez, sem metáforas como a segunda. Agradeci devastando maçonarias com frutas cheirosas amassadas exalando asas mastigadas da Haghia.

Me disse que apenas devolvia o tomado sem consentimento e encostou seu ombro no meu retesando as duas colunas num só bico.

A quem

doarei

meus

órgãos

?

Sincronicidade..


Acaso..
Uma tabuleta inscrita "Vende-se" mas jogada ao chão com lisura.
Era a hora do obviamente lindo, aquela que insiste não se sabe porquê. Apenas é.
Enquanto visitava uma queda no meio de um poço encontrei uma marcenaria.
Então, Katherine, eu nem invejo você. Meti as mãos no barro e fiz pulsar a maior umidade do mundo, virei do avesso o violino.
O que aconteceu depois disso é um êxtase que se prolonga quebrando a ampulheta.

...


Rapto..
"Rápido, que me fugiu a palavra trancada!"
Investi com tudo contra o portão e desloquei meu ombro assim.
Me arrastei pela água lodosa dentro da cornucópia e beijei o adeus.
O amor é ilegítimo e quer ser lambido.
Por uma ponta de lança fina sem antídoto.

...


Praxis..
Remexi um caderno em carne viva, daqueles que só românticos viscerais guardam.
Com nomes poucos, uns marcados em lápis e outros a caneta. Havia método no suspiro de baú.
Claro que um dos nomes era marcado com uma flor. Ficava bonito no vaso de terracota.
Mas você fugiu da cristaleira e ouvir sua voz assim, comendo meu tímpano assustado, pegando na minha mão e dizendo "Venha, eu te seguro e me arremesso" me fez não traficar mais papoulas.

Cheirei todo o pó esparramado naquele corpo que não era o meu sequestrado.

E eu, agora..Sangria..

...

Só uma gozadinha..



Pois bem.
Não é o dia de encontro nenhum. Gosto disso tanto que desci as escadas do prédio pulando de três em três degraus, numa perna só.
Um cara que nunca vi veio subindo, parou e me chamou de 'saci gostosa' e eu fiz mímica: olha eu fumando cachimbo também.
Ele gostou tanto que me ofereceu a carapuça. Desdenhei, claro, gosto de antever mas detesto comprovar o que já sei.

Mais adiante uma garotinha de mãos dadas com o pai deu uma gargalhada, essa sim gostosa, e apontou pra mim dizendo: "Pai, olha como ela é engraçada".
O cidadão de terno não sorriu. Mas me estendeu um cartão de visita que peguei com a boca, lambi, fiz uma bolinha e devolvi pra garotinha: "Ensina ao papai como faz barquinho de papel".

O que alguém precisa pra entender que um não é um não e que nenhum talvez ocasionado por vontade alheia ao eixo potencial transcenderá isso? Mesmo sinuosamente envolvido numa embalagem fêmea tamanho G.
Natureza cogitou quantas punhetas batidas fecundaram papel higiênico em teu nome vão? E cuspiram tétano depois proveniente de metástase de porra ressentida com cheiro de água sanitária validade infinita?
Eles adoram o Sim e o Talvez do Não. O Não mesmo é raposamente enfiado no cu macho pra depois sair peidando "mas ela quer, eu sei o que ela quer, e é pica".
Peguei umas cem fotos de pica pra olhar e me lembrei das que vi ao vivo e a cores pra comparar e pensar nisso, por via das dúvidas. Sempre fui pragmática de um jeito que ninguém supõe.

O telefone toca e é meu ex na linha. Pede para chegar mais perto e chega.

Me pediu pra me "livrar" por ele de três namoradas.
- Querido, você ainda não desmamou? Que cara de pau desgraçada essa sua!
Fez cara de choro safado (é um safado mesmo).
- Não desmamei mesmo não! Não e não! Eu PRECISO que você faça isso por mim.
Haja safadeza, hein! Mas adoro ele e nossa safadeza, é o único que entende meu Não de pedra (ele me apelidou carinhosamente de Muro e eu a ele de Trava), aceita sorrindo e depois ainda rimos juntos encostando nossos braços e pernas "sem querer" sentados no sofá.
- Tá bom, eu faço isso POR VOCÊ. E de graça..só não me chama de mamãe que é foda demais pra minha cabeça.
- Querida, eu te amo, porraaa como EU TE AMO!

Mas que coisa..se eu soubesse que era tão importante isso antes teria investigado seus bolsos, cheirado suas cuecas ao chegar da rua, aberto sua agenda telefônica e detonado todas as mocréias com ácido muriático.

Ele me entrega o celular dele com a cara mais sorridente e lavada do mundo enquanto as chamadas e o sofá começam a vibrar..

Reflexo incondicionado..




Nada é estranho. Tudo é tão íntimo que se imprime em água envolvendo o corpo.
Quando acontece o tempo essa criatura que geme nada incompreende. Tatuagens. Carnes de sonhos.
E então naquela madrugada o cigarro acabou e ela olhou desesperadamente ao redor. O relogio, porra! Ainda faltam algumas horas subindo e descendo por dentro do esôfago, cruzando o intestino pra boiarem entre os dois pulmões afogados.
Não tinha carro pra sair pelas avenidas e parar num daqueles postos 24 horas, nem poderia ligar pra algum restaurante desses com a desculpa esfarrapada de encomendar algum prato exótico ou comum de pronta-entrega. No final perguntaria displicentemente como se já não soubesse da afirmativa: "Aí vocês vendem cigarro?"
Acontece que estava dura, sem um tostão furado. Até a pistola já empenhara no último duelo em que errara de propósito o dolar e acertara o olho do mocinho com cara de gerente de vendas.
Pegou o telefone e já sabia a única resposta possível.
..

Do outro lado da cidade um sujeito entra num carro com uma dona. A dona do carro.
Ela, alta em suas medidas e jeito de gostosona executiva. Projetando seu sucesso de cotas do mês na noitada de sexo que teria naquele motel recém-inaugurado.
Com esse sujeito valia a pena ser empreendedora, orgasmos mil garantidos. Saúde pra dar e vender naquele corpo de peão com espírito de toureiro. E de bônus, sabia que ele não ligava a mínima pra ela e suas regalias, apesar de ser um fracassado como tantos outros e que só estava ali por um motivo que ela fazia de conta que desconhecia.
"Mas a mais-valia valia a pena, hein mocinha!". Pensou com um risinho de canto de boca.
Conversam sobre amenidades. Bem..não tão amenas assim pois esse cara não suporta mais de dez minutos nessa seara bucólica.
"Liga o rádio querido, naquela faixa que você adora". No meio da música o celular dele toca. "Como? Ela está com febre mesmo? Não, você não está me incomodando, para com isso, vai! Já, já, estou aí, se acalme!"

- Querida, me desculpe, mas a nossa noitada furou. Vai ficar pra próxima, espero mesmo que me perdoe. Dá pra você parar num posto de gasolina? Preciso comprar um anti-térmico e levar pra casa urgente! E me empresta cem reais aí porque pode ser que precise. Te devolvo em dobro!
- Claro, querido, tudo bem. Mas você não mora sozinho?
- Sim, moro. Mas aquela não é a minha casa realmente...
...

Encolhida no sofá, chorando e balbuciando: - Me des..culpe..

Foi assim que ele a viu quando entrou, a porta já encostada.

Sorriu, pegou a sacola plástica com os três pacotes de cigarro e falou:

- Você nunca vai saber como é delicioso pegar na sua mão e te entregar exatamente o que você quer..

..

A moça da roça




Saiu de lá muito cedo, antes do galo cantar. Despediu-se da vaca no curral e já sentiu saudade daquele leite de todo dia. Cafés de manhãs brancas com cuscuz de sol molhado.

"Dia de muito, véspera de nada". Pegou o dito popular e deu de milho pras galinhas e seus pintinhos naquele dia.
Foi parar na estrada e pegou carona com alguns caminhoneiros cheirosos, ladrões de bicicleta manetas, cafetões sem puta e travestis descodificados.
O mundo parecia o que era mesmo. Ela não era o mundo e gostava. O mundo não era ela e sonhava.

Depois de alguns meses parou numa churrascaria de beira de estrada com muita fome. Um moço da roça lhe convidou e ficaram algumas semanas um diante do outro naquela mesa sem falar, só comendo.

Despediram-se sabendo de tudo. Um aceno no céu era a correspondência que nunca acabava.
Então ela entrou no concreto armado furando tudo como um garoto de pênis em riste querendo comer a mãe, a irmã e todas as vizinhas.
Honrou sua árvore genealógica que lhe comia as entranhas e pintou um quadro dela saindo da vagina e entrando.

Depois é claro que fez chover outros ditados e dessa vez deu de ração a porcos. Adorava animais, todos eles eram lindos.

Enquanto isso, na cama do oitavo andar que ficava numa escada rolante, a irmã siamesa dava sustos bons com cara de amor em ateus e libertinos e eles sentiam-se puros como a moça da roça, lambendo ou cuspindo na vida eterna.

Amem.

Bolinha de mascar




- Do que você precisa em mim?
- Como assim? Não entendi.

- Esquece.

- Odeio quando você faz isso.

- Faço isso o quê?

- Esquece.
...

- Espera! Tudo bem, eu entendi.

- E por que disse antes que não?

- Ahh porra, sei lá!

- Pois é..esquece..
- E se eu te disser e você não me der o que eu quero?
- E daí? Você é retardado?
- Tá vendo, caralho, você é uma escrota!
- E daí? Você é mesmo um retardado.
- Vai à merda com sua arrogância!
- Pois é, foda-se..esquece..

Eu-Cidade



Nem foi abraçada e couberam todos os beijos sem boca ali.

E eram tantos beijos aqueles sobrados que suas pernas sedimentaram-se em casas. Oblíquas.

Imaginou Deus pela primeira vez, antes de desejá-lo, assim.

Posta, a cidade-observância andou levemente turista por ela e a abandonou, querendo a mendicância mas temerosa da paz embrulhada por jornais.

E amêndoas brotavam do jasmim.

Um dia..era uma vez. E nos bolsos da saia carregava o cavalo Zorba, um pião de quatro faces e uma semente de tamarindo.

Por cima da saia uma calça jeans surrada com cabelos grudados de sangue. No pé esquerdo, uma navalha. E partiu.

Cidade que era de telhados a céu quebrado por asas de cobre, fincou violentamente seis dias em uma hora.

Imaginou Deus pela segunda vez, o desejando. Bocas choveram granizo e também grená, o das feridas amenas que se acham fundas.
Tâmaras macias também jorravam.
Procurou a mandrágora, que lhe apetecia lembrar seu grito de enforcado na mão e afrontá-lo. Pisar a memória até a roda furar: seu furo era melhor, de fino útero. Buda, Jesus e os outros da arca só fizeram lamber um céu que tudo dá e nada seu comporta.

Colheu morangos na Etiópia e plantou girassóis no sertão baiano. No quintal do seu apartamento fez renascer um morto só para matá-lo mil vezes e brincar de amarelinha.

Nem foi beijada e cabiam todas as bocas ali.

Sua lua era uma mendiga particular...