Carta





Não aqui: antes.

Como alguma madrugada em distância de cuspe, voltei lá. Esgoto em calha que renderia sobrevivência.

Havia mais ainda que desconsiderei como avanço e mesmo assim segui, amanhã o inútil já esgotado.

A escada tentava conter uma febre fria escorrendo do manual e gotejava esboço de luneta suja.

Capinei um poema de carne horas atrás, soquei num buraco de concreto e foi tão grande a fissura que sumiu!

Agora não antes: aqui.

..

Muro em branco



Véspera de Natal em pleno sec.XXI.
Ela acordou com aquela sensação estranha outra vez. De ser um inseto.
E como das outras vezes, repetia para si mesma "Eu fiz o que tinha que fazer, eu fiz o que tinha que fazer".
O telefone toca insistentemente e assim ficará até morrer a chamada. Olhou irritada para o aparelho que nesse momento parecia uma extensão do seu rastejar intermitente.
"Eu fiz o que tinha que fazer, eu fiz o que tinha que fazer!".

Sua expressão suavizou-se lembrando do quadro de Duchamp e sua graciosa prova de co-existência: pés que não são amputados mas delicadamente possuem vida própria.
Assim, tirou seus pés- ainda sombra da estrada- e capturou a beleza por alguns instantes na calçada. "Minha vida andaria a sua vida".

Sentia-se agora uma ave de rapina cega e linda, correndo tanto dentro daquele segundo que quis eternizá-lo.

Suicidou-se naquele dia, deixando num bilhete, um muro em branco.

"Quando a gente fica exausto, pelo motivo que for,
ficamos mais bonitos.
Mas como pedra.
A estátua vive no relâmpago.
É o céu que fazemos."

..

"Lola"





Dos dias anteriores ao do jardim recordava agora especialmente de um.
Mas antes disso ainda, voltemos à concepção dos latidos em letras.

Claro que pegara o ponteiro quebrado de Virgínia: Flush empoeirado na segunda prateleira sempre meio que lhe seduzia o olhar nos momentos mais improváveis, como este agora, em que indo à lavanderia futucar finalmente a roupa mofada, e já contando com algumas perdas, deixava a cabeça pender para o lado complacentemente - olhar desviado - já sabido o remetente. Umidades e seus odores inevitáveis tomavam sempre contornos atraentes por dentro de suas narinas e formavam uma neblina densa, impedindo que o inexplicável cheiro de lavanda, que surgia sempre às terças-feiras, a sufocasse.

Do livro, diria ainda que a contra-capa era mesmo como um abano de orelhas sacudidas por pulgas enormes, tanto que quando entrava um vento sorrateiro pela janela colidindo com o bafo canino, chegava a ouvir latidos..“Por Deus, juro que sim!”. Mas como acreditava menos em espíritos e mais em novelos, apenas miou como um gato e aliciou as mãos caídas pela beira do sofá, que lhe trariam a derradeira carícia.

Cada vez menos recordando o jardim, evadiu-se, abanou o rabo e olhou de esguelha para mim, já indo longe.

Mais longe ainda, meu último soluço. Só eu o ouvia agora com a nitidez de um carimbo sendo estampado.

Ela voltou para fechar meus olhos com a língua em selo e latiu solenemente.

..

Confissões de Adriano. Adriano?



Alguém aqui já foi ameaçado(a) de morte por um(a) ex?

Eu já!

E confesso a vocês: nem quando ela dizia me amar convenceu tanto quanto agora. Talvez em algumas pessoas o ódio desperte mais vontade de agir do que o próprio amor. Tenho certeza que Bárbara é uma dessas!

Era noite de sexta-feira e chovia, e como chovia! A campainha tocou com aquele jeito íntimo e ameaçador, típico dela. Saindo do banho e ainda enrolado na toalha fui atender a porta. Sabia, antes mesmo de olhar no olho-mágico, de onde vinha aquela antiga sensação.

- Oi, entre.

Sem dizer uma palavra sequer entrou na sala, antes mesmo que eu terminasse de fechar a porta.

- Sabe por que estou aqui, Adriano?

- Seria saudades ou esqueceu o troco?

- Vejo que ainda continua um grande idiota.

Desconfiado de algo mais, dei um sorriso de canto e vi que ela mexia em sua bolsa. Parecia uma arma. Não, era de fato uma arma. Pequena, como ela.

- Adriano, você ainda vai morrer com um tiro no meio da testa. Duvida?

Duvidar de alguém que até certo tempo atrás dizia me amar e que agora me apontava um revolver? Não haveria como!

- Ficou maluca? Abaixe isto!

- Fiquei maluca sim, seu otário! De agora por diante terá que amar esta arma, ou então... bom, já sabe.

- Que história é essa de amar uma arma?

- Saberá agora! Vamos, tire a toalha que te quero todo nu no meio da sala.

Obedeci com as pernas trêmulas, hipnotizado. Minha única certeza é que não poderia contrariá-la. A toalha caiu e caminhei até o meio da sala.

- Agora seu canalha, pagará por tudo que me fez sofrer. Vamos, abra a boca!

- O que é isso, Bárbara?

- Vamos, abra a boca ou morre com um tiro na testa!!

Mal terminou de dizer essas palavras eu soube que aquilo tudo estava longe de ser uma brincadeira de mau gosto. Em seus olhos, via-se o domínio de uma maldição prestes a acabar com a minha vida, ou fazer dela apenas mais um jogo de azar.

- Isso, caro Adriano... Abra direitinho e bem devagarzinho essa sua boca imunda. Não se preocupe, não atirarei agora, não antes de fazê-lo se borrar de medo.

- Não atire, por favor. Faço o que você quiser. Mas não atire!

- Calma. Obedeça-me apenas. Vai, chupe com gosto o cano dessa arma, seu cretino!

Por impulso, já de boca aberta, fechei os olhos e ela, sem hesitar, enfiou o cano da arma vagarosamente. O gosto de metal e ferrugem misturou-se junto à saliva, fazendo-me sentir um enjôo repleto de medo e pavor. Ela, fazendo movimentos de vai e vem ria da minha cara escandalosamente. Percebi que estava com o dedo no gatilho, e que qualquer vacilo meu naquele instante poderia ser fatal.

- Ai Adriano... Se eu soubesse que você chupava um cano tão gostoso assim, juro que gostaria ter nascido homem, só para ser chupado por você. Vai...Chupe gostoso, seu filho-da-puta!

Na verdade, nesse instante eu não pensava em nada. Muito menos em reagir, já que não me restava chance alguma de fugir da sua ira. E como ria a desgraçada da minha cara, enquanto eu já estava prestes a me urinar todo.

- Lembra de quando você me tratava feito uma escrava sexual, onde apenas o seu prazer era colocado em mesa? Agora é a minha vez! E o meu prazer tornou-se nisso que você está vendo, seu babaca. Chupe mais!

Ela não parava. Empurrava todo o cano da arma em minha boca, já cheia de saliva causada pela ânsia.

- Não vou estourar sua cara com um tiro na boca hoje, Adriano. Já disse: hoje não! Mas você está certo em seu terror, afinal quantas vidas o medo já salvou da morte? Gosto de ver os seus olhos estampando o medo de perder uma vida tão medíocre, como a de um suicida qualquer. Isso paga tudo meu caro. E não dispensar a sua agonia me dá muito mais prazer do que qualquer transa que tivemos.

Já não agüentava mais a pressão. Sem conseguir segurar, comecei a urinar. Ela riu mais ainda. Suas gargalhadas só aumentavam enquanto eu ali, apavorado, nada podia fazer.

- Sabe de uma coisa Adriano? Eu poderia enfiar esta arma em seu cu e lhe ordenar o disparo. Não seria engraçado você, na sala de autópsia, causando espanto e riso nos legistas? Afinal, quantas pessoas se suicidam com um tiro no cu? Você seria o primeiro, Adriano! Mas para esta idéia valer a pena, eu teria que estar lá.

Tirando a arma repentinamente da minha boca, enrolou em uma espécie de flanela, para então colocar em sua bolsa novamente. A sessão tortura estava encerrada, mas para sempre a sensação causada por aquilo tudo iria me acompanhar. Antes de sair, deu um beijo perverso em minha boca babada e sorriu.

- Adriano, no fundo você é mais feliz do que eu. Você conhece o seu fim, eu não.

..

Actos



Cena 3


Nua subindo as escadas.


- Frase mais engraçada do mundo?

- Se eu dissesse, ninguém acreditaria.

- Fala sério!

- Falei não.

- Entendi..

- Então..não entendeu nada, Viena!


Ironia de criança não ser criança.

..

Cena 2


Na rampa, descendo.


- Matilde não compareceu.

- Quais as chances então?

- Nulas. Se não fossem por elas.

- Você é engraçada.

- Se não fosse por mim, seria verdade então.

- Quando ela virá?

- A verdade?

- Não, Matilde!

-Oras..responde você essa.

..

Cena 1


Aplausos.


- Peça!

- Não.


Fim..

A quatro pernas


Como? Você quer a fala deitada?
Morda-se!
, o que posso cuspir de imediato é que não há coisas para dizer. Um floco de neve no calor. Tripas acesas na janela e o rabo, chefe. O rabo de olho perseguindo o trajeto da magreza. Sinto paixão pela magreza, as costelas à mostra e todo esse fenômeno estúpido de sair como uma vira-lata presa na solitária,
E no túnel o final do cuspe com abertura saindo pela culatra.
E então chefe, me dá uma carona pela praia? Deixa por lá as patas molhadas de cavalos e o berro.
Dizem que somos quase parentes e que por isso aderimos ao quase nada.
Deita apodrecido e confesse que me come antes que trucide os teus nervos num só rasgo!



Confesse que há mais jornada nessa égua-mula-dada que em mil demônios prontos para carnificina. Olho por detrás da tela e a saliência de uma veste momentânea me fode o espetáculo. Entro em tudo, chefe. Entro em tudo e quero ser





entrada.

Pausa para palitar os dentes e delícia. Entupi tuas cáries com minha língua em riste e teu pau derreteu, sacudiu-se histericamente calado. Sacudiu um algo em mim que não se vê sacudido em nada.
Rio da sobremesa em curso.
Meu garfo tem duas conchas de camelo na bexiga e te guardo para a próxima mijada.
Espera! Ouço um pássaro. Bonito!
É engraçado como minha vó e minha mãe se anunciam na floresta de machados.pedacinhos-espantalhos pendurados nas árvores. Retorcidos. Espanta-te?

Vejo de dentro do líquido gozoso deus e suas vestes umbilicadas de pequenos achados. Mas estou perdida porque não amo até encontrar a peste. Até encontrar o sumo derretido.

Tenho quatro mãos que sangram no pescoço. É hora da fogueira, penso.
Você não será minha cruz.
Gozo em hóstias e te batizo.

gozo em hóstias. meu gozo é líquido.

...

(esse texto foi moldado e escorrido pelas coxas de Grazzi Yatña e Jorgeana Braga)

Vem!



Alguns sinais marcavam o empenho.
Uma caneta estourada, uma borracha sem existência.
Era assim que se fabricava um simulacro de compreensão. Essa coisa tardia sem precisar.
Ela veio coberta de reticências, vírgulas só por rebentação da exigência estética.
Agarrada a duas terras diferentes de línguas antagônicas. No meio o inalcançável ponto.
Precisava da intransigência para sua vocação.
Ninguém viu sua hora. E seguiu.

"Volta! Porra de existencialismo fodido esse!"

A merda do inconsciente é um sujeito manhoso e tem mais é que tomar no cu mesmo. Afinal todo mundo precisa de companhia..

Sorriu, abriu a geladeira, pegou uma maçã e mordeu. Era dia de pagar a conta de energia, condomínio, votos de silêncio e..pintar uma parede da sala.

Laranja, bem berrante!

Da última vez pintara com manchas que pareciam uma pasta de amendoim que lembrava mais cocô. E toda vez que chegava algum cobrador ela abria a porta e apontava:

"Encosta a bunda ali e arrasta, pode cagar mais um pouco, o espaço foi reservado pra isso mesmo"

É foda mas o óbvio precisa ser sempre dito.

Amanhã será dia de cobrar o cobrador.

"Não, volta! Amanhã será dia de matar o cobrador."

Alisou a última bala..

Ritornello


914. Significados.

A tarde colada em cacos que eu quebrara do dia anterior.
Engraçado o jeito de paisagem remoída de quebra-cabeça enquanto se move um trilho.
Inverti e fiz descer a noite no asfalto. 914: era um número de que sorte?
A última vez que o vi assim, tão focalizado, foi numa noite sem noite, só de atiradores de facas e açoitadores.

Mas dessa vez pude olhar fixamente para ele por um bom tempo antes..os atiradores prendi no porão dos escravos..dessa vez.
914. Agora pregado num azulejo português danificado pelos séculos mas impertubável como as catequizações significantes.

Sussurrei então 914 vezes o mesmo número, ali, sem piscar. Decompus, fracionei, multipliquei, potencializei na elevação do zero.
Claro: todos os números acabam potencializados no zero. Um.

Um menino em riste me estende um tubo de cola de sapateiro; puxa meu braço. "Moça, é de graça pra você".
Sorri e apontei minhas sandálias.

"Tudo bem, entro no seu bolso e fico com Elisa acendendo seus cigarros então".

914. Lembrei do um, pisquei pro menino, peguei meu violino e dei a ele meu acordeon.

Vamos, vamos seduzir Elisa!

Zero pode ser dois..

Nômade



Elisa no bolso.

Gostava assim. Caída dentro de uma caixa de fósforo.

Sendo carregada por quem precisasse de fogo pra acender um cigarro.

Gostava de pensar que talvez aquele fosse o último cigarro a ser aceso por algum viciado. E sorria pensando nisso.

Viciados continham aquela ternura linda de artifício sem-vergonha.

Coisa de pegar um copo de cachaça já com a mão tremendo e até antes de colocar na boca sentir como se o mundo todo estivesse à sua disposição finalmente, naquela metade de minuto.

Naquela metade de gota..antes de morrer.

..


No bolso de Elisa.

O que morava ali: herança de ciganos ricos e mendigagem.

Os três porquinhos e os irmãos metralha sem disneilândia.

Ossos do ofício. Dizem.

..


Entre as duas ranhuras.

O desespero de todos e o sorriso de alguns desesperados atravessando o elmo dos horrores.

Entre o copo e a água uma passagem de segundo. Minimalismo selvagem.

..


Numa casa menor ainda feita de tripas de sangue coagulado a porta de entrada não era o espetáculo.

As crianças que passavam ficavam doces imaginando uma enorme maçã do amor gotejando.

Foi assim que nervos, vísceras e carne-viva viraram suco de língua.

Elisa lambia o avesso-mundo.

Agora montava vagões e saía pelo trilho com os bolsos cheios de sabotagens.

Distribuindo tropeços pelo mundo-avesso.

..

Quando não há carnaval..




..então costuramos nossas mãos assim, em relevos salivados de boca.

Você é mesmo algo desenhado entre a minha e o desejo de morder gagueiras.
Morri, meu pássaro. Só pra te alcançar.
Enquanto te sobrevoava desci docemente sobre teu peito de arroz, a mais fina tecelagem entre meus dedos escuros.
Tão morno teu cantar que cavou um vulcão e ficou lá, borbulhando favos e pólen numa forma minério-animal que nunca vira antes.
Carvão adormecido em savanas, acordando marfim sinuoso dentro do sexo mamífero.
Foi jorrando leite do moinho que te ofereci a casa e o dedal.
Com solenidade ímpar aderimos duas cloacas e ficamos pegajosos lambendo violentamente as seis bulhas.
Nos intervalos que não haviam comemos nossas costas arranhadas com suturas saltando dos olhos-asas.
Quanto mais invasores, invadidos.
E tanto que finalmente..Eu-você e sem categoria nem espécie.
Agora somos uma raça de peles que desdobram-se hibridamente para sobreviverem ao amanhã.

Um candeeiro guarnece toda a emboscada em canela e hortelã furiosas..